RIO GRANDE DO NORTE, GEOGRAFIA, HISTÓRIA E SOCIEDADE DO RIO GRANDE DO NORTE

RIO GRANDE DO NORTE, GEOGRAFIA, HISTÓRIA E SOCIEDADE DO RIO GRANDE DO NORTERio Grande do Norte, Geografia, História e Sociedade do Rio Grande do Norte

O estado do Rio Grande do Norte, na região Nordeste, ocupa uma área de 53.307km2, na maior parte incluída no chamado Polígono das Secas. Limita-se ao norte e a leste com o oceano Atlântico, ao sul com a Paraíba a oeste com o Ceará. A capital é Natal. Graças a sua privilegiada situação geográfica -- localiza-se na costa sul-americana mais próxima da Europa --, o Rio Grande do Norte sempre teve singular importância estratégica. Como diziam os portugueses quinhentistas, "é a mais perto terra que há no Brasil".

Geografia física do Rio Grande do Norte

Geologia e relevo. Cerca de 83% do território estadual encontram-se abaixo de 300m e 60% abaixo de 200m. Duas unidades de relevo compõem o quadro morfológico: terras baixas e planalto. O planalto, extremidade setentrional da Borborema, penetra o estado pelo sul, afastando-se bastante do litoral oriental, ao contrário do que ocorre nos estados da Paraíba e de Pernambuco. Apresenta dorso acinzentado e mais baixo que no estado da Paraíba (somente ao norte de Currais Novos alcança o planalto a cota de 800m de altitude), rebordo tortuoso e pouco escarpado.

As terras baixas cercam o planalto pelos lados de leste, norte e oeste. Compreendem os tabuleiros areníticos, dispostos ao longo dos litorais oriental e setentrional; a faixa de baixos terrenos cristalinos situados a leste da Borborema; a grande superfície tabular na chapada do Apodi (200m de altitude), situada a nordeste do estado e cortada pelos vales dos rios Apodi e Piranhas; e finalmente o peneplano cristalino, com suas grandes extensões de relevo ondulado e do qual despontam esparsamente cristais e picos isolados. Outra forma de relevo característica das terras baixas é a planície aluvial que se desenvolve ao longo dos principais rios, especialmente do Piranhas e do Apodi.

Na porção sudoeste do estado ocorrem alguns maciços isolados com cerca de 600m de altitude, entre os quais se destacam as serras de São Miguel, do Martins e Luís Gomes. É a chamada região serrana do Rio Grande do Norte.

Mapa do Rio Grande do NorteClima do Rio Grande do Norte

Três tipos de clima ocorrem no estado: o tropical úmido, com chuvas de outono-inverno (As' do sistema de Köppen), o semi-árido quente (BSh) e o tropical semi-úmido (Aw'), com chuvas de outono. O clima tropical úmido ocorre na baixada litorânea oriental. Registra uma temperatura média de 24° C e uma pluviosidade de 1.000mm, que diminui rapidamente da costa para o interior, passando a 600mm a apenas cinquenta quilômetros do litoral.

O clima semi-árido quente domina praticamente todo o resto do estado, inclusive o litoral setentrional, dando lugar a uma costa bastante seca. As temperaturas médias alcançam 26o C no interior e a pluviosidade, inferior a 600mm, é sujeita a grande irregularidade, deixando de ocorrer, em alguns anos, a estação chuvosa de outono. O tropical semi-úmido ocorre apenas no extremo oeste. Registra temperaturas médias também elevadas e chuvas outonais mais abundantes que na área semi-árida (mais de 600mm anuais), sobretudo na região serrana, a sudoeste.

A larga planície costeira do Rio Grande do Norte é a única região litorânea do Brasil com clima semi-árido. Ali, a pluviosidade reduzida, os ventos secos e constantes e as temperaturas elevadas fazem do estado o maior produtor brasileiro de sal, com 77 a 85% da produção nacional, conforme o ano.

Hidrografia. A rede hidrográfica compreende rios que correm para o litoral oriental e rios que correm para o litoral setentrional. Os últimos são os mais extensos do estado, como o Apodi e o Piranhas ou Açu. A grande bacia deste abarca inclusive a porção ocidental da Paraíba.

Todos os rios do Rio Grande do Norte apresentam regime intermitente: registram grandes cheias na estação chuvosa e desaparecem na época da estiagem. No interior, numerosas barragens foram construídas, dando origem a açudes como os de Cruzeta, Gargalheiras e Itãs. Na embocadura dos rios do litoral oriental observam-se numerosas lagoas, que ocorrem também nas várzeas dos rios Piranhas e Apodi.

Vegetação do Rio Grande do Norte

Três formações vegetais revestem o território rio-grandense: a floresta tropical, o agreste e a caatinga. A floresta tropical só é encontrada numa pequena área situada a sudeste, onde forma a extremidade setentrional da floresta litorânea que dá nome à zona da mata nordestina.

O agreste, com uma floresta menos exuberante que a anterior, apresenta um tipo de vegetação de transição para o clima semi-árido do sertão, com composição mista, com espécies da floresta tropical e da caatinga. Domina toda a porção oriental do Rio Grande do Norte, único estado em que essa vegetação chega até o litoral.

A caatinga recobre as porções central e ocidental do estado. É o tipo de vegetação que ocupa maior área, cabendo-lhe aproximadamente noventa por cento da superfície estadual. Na fímbria litorânea observa-se a característica vegetação de mangue.

População do Rio Grande do Norte

A faixa mais povoada é a da baixada litorânea oriental, sobretudo na microrregião de Natal, a região mais úmida do estado. Nas demais regiões, as densidades se reduzem bastante, na seguinte ordem decrescente, por região: agreste, microrregião serrana do sudoeste, salineira, Borborema, Seridó, Serra Verde, Açu e Apodi, litoral de São Bento do Norte e sertão de Angicos.

Todo o território estadual se integra na área de influência da cidade de Recife (PE). A ação econômica da metrópole pernambucana se produz no estado por intermédio de duas capitais regionais, Natal e Campina Grande (PB). A primeira serve toda a porção oriental e setentrional do estado, enquanto à segunda cabe apenas a porção sudoeste. Entre as cidades mais importantes do Rio Grande do Norte, destacam-se, além da capital, Moçoró, Parnamirim, Ceará-Mirim, São Gonçalo do Amarante, Caicó, Açu e Currais Novos.

Economia do Rio Grande do Norte

Agricultura e pecuária - O mais importante produto agrícola do Rio Grande do Norte é o algodão. Cultiva-se a variedade arbórea nas áreas de menor pluviosidade, em terras do agreste e da caatinga. A principal área produtora, situada no sul do estado, compreende o agreste da Borborema e a área semi-árida situada a oeste do planalto, a região do Seridó. Em segundo lugar como cultura de larga distribuição geográfica, aparece o feijão, cultivado quer nos solos mais úmidos das planícies aluviais e pés-de-serra do sertão, quer em terras de caatinga, como cultura consorciada, ligada ao milho e ao algodão.

Seguem-se, em ordem decrescente de importância, o milho, a mandioca e o agave. Este último, introduzido na segunda metade do século XX, expandiu-se na região do agreste. Ao contrário do que ocorre nos demais estados do Nordeste, o cultivo da cana-de-açúcar ocupa posição modesta no Rio Grande do Norte.

Embora recente e sem tradição no estado, a cultura do caju é a segunda do país, somente inferior à do Ceará. O Rio Grande do Norte produz ainda melão, coco-da-baía, batata-doce e mangas. Entre os produtos extrativos vegetais destacam-se a carnaúba, abundante nas várzeas dos rios Apodi e Piranhas (o estado exporta cera) e a oiticica (a extração e beneficiamento do óleo constituem uma indústria florescente). Exploram-se ainda gomas elásticas, cascas de angico e painas.

O rebanho estadual tem distribuição geográfica generalizada, com um certo adensamento no agreste. Entretanto, a maior parte dos animais se encontra no sertão, em pastos formados de antigas terras de caatinga. Nas fazendas de criação do sertão é comum a construção de pequenos açudes, e em algumas áreas são plantadas forrageiras, sobretudo a palma (cactácea). A alimentação dos animais é em geral complementada com a torta de caroço de algodão, subproduto da extração do óleo de caroço de algodão.

Mapa Político do Rio Grande do NorteIndústria

A principal indústria de transformação no estado é a têxtil, tanto pelo número de estabelecimentos quanto pelo de pessoal ocupado e volume de produção. Destacam-se ainda a de produtos alimentícios, a indústria de vestuário e artefatos de tecido e a indústria química. O grau de concentração geográfica dessa indústria é reduzido, devido ao grande número de unidades de beneficiamento de algodão dispersas pelo interior do estado.

Em segundo lugar vem a indústria de produtos alimentícios, em que se destacam as usinas de açúcar da região litorânea. Seguem-se os setores de vestuário e artefatos de tecidos e a indústria química.

A extração de produtos minerais alcança grande importância na economia do estado, que é o maior produtor de sal marinho do país. A produção, hoje com elevado índice de mecanização, se concentra no litoral norte, sobretudo nos municípios de Macau, Moçoró e Areia Branca. Muito rico em minerais, o Rio Grande do Norte é também o maior produtor nacional de tungstênio (xelita), explorado na região de Currais Novos e destinado ao mercado externo em sua quase totalidade. O estado é também produtor de petróleo (o principal campo é o de Uburana, na plataforma continental) e novas jazidas foram descobertas no início da década de 1990. O estado dispõe ainda de importantes ocorrências de mármore, gipsita, tantalita, calcário, berilo e águas minerais.

Energia e transportes

A produção de energia elétrica é bastante reduzida e, em geral, proveniente de usinas térmicas, pois a natureza dos rios não permite seu aproveitamento. O estado é abastecido pela Companhia Hidrelétrica do São Francisco.

As principais rodovias são a BR-101, que liga Natal a Recife, Salvador e ao sul do país, e a BR-304, que parte da capital e corta o estado em direção a Fortaleza CE. Para solucionar o problema de escoamento da produção de sal, o governo federal construiu nos portos de Macau e Areia Branca ilhas artificiais dotadas de cais de acostamento aos cargueiros. Estes são carregados automaticamente por um sistema de cabos aéreos providos de caçambas. O porto de Natal, de grande movimento, conta com um canal de acesso com cem metros de largura e 5,9m de profundidade.

História do Estado do Rio Grande do Norte

Na divisão do Brasil em capitanias, coube o Rio Grande do Norte a João de Barros, feitor da Casa da Índia e Mina e futuro cronista das Décadas da Ásia. Media cem léguas de costa, contadas para o norte desde a baía da Traição, limite de Itamaracá, e incluía parte da atual Paraíba.

Na frustrada expedição colonizadora empreendida em 1535, alguns dos dez navios se perderam e foram dar às Antilhas. De volta do Maranhão, os dois filhos de João de Barros, João e Jerônimo, fracassaram na tentativa de fixar-se no Rio Grande do Norte e os selvagens potiguares devoraram os poucos homens que se aventuraram em terra. Em 1555, uma segunda expedição, em que de novo tomaram parte os filhos de Barros, foi também desastrosa. O donatário continuou interessado na capitania, assegurando-se dos seus limites, administrando-a através de um procurador, arrendando trechos do território para extração de pau-brasil ou coleta de búzios. Mas nunca tomou posse da terra, que reverteu à coroa depois de 1580.

A capitania tornara-se, em anos de abandono, alvo de traficantes franceses de madeira, como Jacques Riffault, que os portugueses chamavam Refoles, e que em 1594 se instalara, com a convivência dos índios, no estuário do rio Potenji. Só em 1598 os piratas foram dali desalojados, por iniciativa do nono governador-geral, D. Francisco de Sousa, numa campanha em que se distinguiram o capitão-mor de Pernambuco, Manuel de Mascarenhas Homem, comandante da operação, e Jerônimo de Albuquerque, depois Maranhão.

Este último fez construir no local o belo forte que, projetado pelo jesuíta espanhol Gaspar de Samperes, se chamou dos Reis, Santos Reis ou Reis Magos, por ter sido começado em 6 de janeiro. Junto à fortaleza formou um aldeamento que, em 25 de dezembro de 1599, recebeu o nome de cidade do Natal. Reconstruído seguidamente na colônia, o forte teve então importante papel como centro de submissão dos nativos, cuja definita pacificação viria mais tarde, por obra dos jesuítas, como o próprio Samperes, Francisco de Lemos e Francisco Pinto, que os potiguares chamavam Amanaiara (senhor da chuva).

Eram numerosíssimos na região os silvícolas das raças tupi (os potiguares) e cariri (paiacus, paiins, monxorós, pegas, caborés, icozinhos, panatis, ariús, janduís). O apresamento, a miscigenação, as doenças importadas e o extermínio à mão armada dizimaram-nos rapidamente. Um censo de 1844 registrou pouco mais de seis mil indivíduos.

O negro, cujo advento coincidiu com a fundação da capital, nunca chegou a ser dominante no Rio Grande do Norte. Seu número aumentou quando o pastoreio cedeu lugar à cultura da cana e, depois, do algodão (gado e cana-de-açúcar provieram de Pernambuco). Caiu, quando teve início, no fim do século XIX, novo ciclo pecuário. Da mestiçagem do português (do Alentejo, das ilhas, do Minho) com o índio proveio o grosso da população. Vaqueiros, peões, cantadores são, até hoje, em grande maioria, caboclos de pele morena, cabelo escorrido e braquicefalia cariri. Mulatos e cabrochas ocorrem em muito menor número do que nos estados vizinhos.

Os holandeses não deixaram marca étnica apreciável no estado. Também não modificaram a expansão geográfica, pois sua conquista ignorou o sertão. Só a partir de 1654 começaria a penetração, com pequenas boiadas e malgrado a oposição indígena. No Rio Grande do Norte, como em outros lugares do país, o gado foi responsável pela abertura dos caminhos e, depois, pela fixação da população no interior. Inúmeros terreiros de fazenda transformaram-se em praças centrais de lugarejos. Pode-se mesmo dizer que quase todas as sedes municipais do interior do Nordeste foram antigas fazendas de criação.

A capitania

Pouco se sabe dos primeiros anos da capitania. Funcionou como presídio militar no século XVII. Em 1611 demarcou-se a fronteira com a Paraíba. Não havia governo civil. O capitão-mor ditava a lei, distribuía justiça e terras, comandava o forte. Este constituía a mais setentrional das posições portuguesas na costa do pau-brasil. Interessados em neutralizá-lo, em capturar os rebanhos e as salinas de Macau e Moçoró, os holandeses apareceram repetidas vezes diante da praça -- em 1625, com Edam Boudewinj Hendrikszoon; em 1630, com Adriano Verdonck; em 1631, com o índio Marcial ou Marciliano, fugitivo dos acampamentos portugueses e primeiro elemento de ligação entre as tribos e o batavo, a quem propunham aliança contra os portugueses.

Só em 5 de dezembro de 1633 partiu afinal de Recife, contando com a colaboração de Calabar, a grande expedição que deveria conquistar o Rio Grande do Norte. Onze navios, sob o comando do almirante Jan Corneliszoon Lichthardt, conduziam 808 soldados, víveres para nove semanas, tripulações e munições. A guarnição portuguesa, comandada pelo capitão Pero Mendes de Gouveia, rendeu-se; o forte dos Reis Magos passou a se chamar castelo de Keulen, e Natal, Nova Amsterdam. A ocupação se prolongou por vinte anos e seria de violência e rapina. Os holandeses não se interessaram pelo sertão, mas seus barcos navegaram até a foz do rio Açu para buscar sal de Macau e Moçoró. O holandês não se afastou do litoral nem do agreste, onde estavam, além das salinas, as melhores reservas de gado, de madeira e de cereais da área ocupada, que eram as únicas coisas que interessavam à Companhia das Índias Ocidentais.

Derrotados pelos patriotas nas Tabocas, em 1645, os invasores procederam a massacres e em 1648 foram derrotados por Henrique Dias na ilha da lagoa Guaraíras. Em fevereiro de 1654 o capitão Francisco de Figueira ocupou o castelo de Keulen, que encontrou abandonado. Com as salvas da ordenança, hasteou-se no mastro do forte a velha bandeira, que vinte anos antes fora arriada diante dos olhos de Pero Mendes Gouveia, triste, ferido e derrotado.

Volta dos portugueses

Só muito lentamente a capitania, devastada, se refez. O primeiro capitão-mor do pós-guerra, Antônio Vaz Gondim, que governou de 1654 a 1663 e de 1673 a 1677, cuidou da restauração do forte dos Reis Magos, da reconstrução da capital e do repovoamento. Geraldo de Suni, que administrou a capitania entre os anos de 1679 e 1681, encetou a exploração regular das salinas do litoral de Touros e ampliou a área conquistada ao sertão. Antônio da Silva Barbosa governou de 1681 a 1682, continuou a concessão de sesmarias. Contudo, seu sucessor, Manuel Muniz, deveu ainda fazer ao rei melancólico relato das condições locais.

Sem recursos para a compra de negros, os colonos passaram a caçar índios, o que levou à guerra dos bárbaros, guerra do Açu ou confederação dos cariris, a maior revolta de índios já registrada no Brasil. A fase mais intensa durou de 1687 a 1697, mas o conflito se prolongou, embora com menor intensidade e de forma intermitente, até 1713. Dizimou os rebanhos, mas teve um resultado positivo: o Rio Grande do Norte foi trilhado de norte a sul e ocupado desde o litoral até o fundo do sertão. Em 1695, o Senado da Câmara informava ao capitão-mor que todas as terras tinham sido doadas.

A capitania dependia administrativamente do governo de Pernambuco desde 1701, o que muito lhe retardou o desenvolvimento. Só em 1820 criou-se a alfândega independente de Natal. O cerceamento da indústria da carne seca de Açu e Moçoró e a proibição da exportação do sal impediram qualquer progresso econômico. Só em 1808, com a trasladação da corte real portuguesa para o Brasil, o comércio do sal, liberado, tomaria impulso.

Havia importante atividade de criação, mas os laticínios (leite, coalhada, requeijão-do-norte, queijo-do-seridó) esgotavam-se no consumo local. E a lavoura era incipiente, de subsistência (milho, feijão, mandioca). As únicas atividades rendosas eram a exportação de boi em pé (seis mil cabeças por ano, segundo dados de 1799) e de peixe seco para as capitanias do sul. Vendiam-se, também, couros e peles, açúcar, algodão, pau-brasil e tatajuba (Bagassa guianensis), que fornecia madeira de construção e tinturaria, casca para curtumes e resina de valor medicinal. Substituída como corante pelas anilinas, perderia seu mercado tradicional, a França, no século XIX.

A capitania participou -- através do padre Miguelinho -- da revolução de 1817. O governador José Inácio Borges foi, nessa ocasião, deposto pelo coronel André de Albuquerque Maranhão, morto, em seguida, a faca. Sua família manteve um dos primeiros engenhos da região, o de Cunhaú, que, por volta de 1630, já produzia por safra de seis mil a sete mil arrobas de açúcar. A plantação de cana desenvolveu-se por essa época e deu origem a uma série de novas vilas: Portalegre (1761), São José (1762), Vila Flor (1769) e Nova Princesa, hoje Açu (1788).

A província

Em 1822, com a independência e o império, a capitania transformou-se em província e foi governada por uma junta provisória encabeçada por Manuel Teixeira Barbosa. O primeiro presidente, Tomás de Araújo Pereira, tomou posse em 1824. Daí até a proclamação da república, o Rio Grande do Norte teria 48 presidentes.

Em 1824, a província não aderiu formalmente à Confederação do Equador, embora Tomás de Araújo, de tendências liberais e simpático a Manuel de Carvalho Pais de Andrade, tenha dado aos rebeldes alguma ajuda. Acabou deposto por causa disso. Houve feroz repressão, chefiada pelo sargento-mor Morais Navarro, mas seu sucessor, o coronel Teixeira Barbosa, pacificou os ânimos. Todavia, só em 1853 se inaugurou a chamada política de conciliação e se deu fim às mesquinhas escaramuças dos partidos, que dividiam e imobilizavam a província. Houve, então, modesto surto de progresso material, com a intensificação da cultura algodoeira, e intelectual, com o aparecimento da imprensa, das primeiras escolas dignas desse nome, e do Ateneu.

Em 1865, a rede postal, iniciada timidamente em 1829, cobria quase todo o território. O serviço telegráfico data do governo de Eliseu de Souza Martins, em 1878. Em 1875, chegou a Natal o vapor São Jacinto, inaugurando a escala regular do Lóide Brasileiro.

As grandes secas de 1844-1845 e de 1877, que empobreceram e deslocaram a população sertaneja, tiveram como sequela o cangaço, que fez seu aparecimento com Jesuíno Brilhante. A província desempenhou papel atuante na campanha abolicionista. Os escravos do município de Moçoró foram todos libertados em 1883. A Lei Áurea coincidiu com a inauguração da primeira fábrica de tecidos, em 1888.

A mais antiga manifestação republicana de grupo na província é a saudação enviada em 30 de setembro de 1871 ao Clube Republicano do Rio de Janeiro. O pernambucano Joaquim Teodoro Cisneiros de Albuquerque encabeçou esse movimento e tentou realizar comícios de propaganda republicana em 1874. No mesmo ano Joaquim Fagundes lançou o Eco Miguelino, folha antimonarquista. Em 1886 surgiu em Caicó o primeiro núcleo republicano, e em julho de 1889 foi publicado no jornal O Povo o "Manifesto republicano ao povo seridoense". Nesse mesmo ano, na sessão de apresentação do último gabinete monárquico, o do visconde de Ouro Preto, o padre João Manuel, deputado pelo Rio Grande do Norte, surpreendeu o plenário com um grito de "Viva a república". Em seguida se retirou da atividade política.

República Velha

O chefe republicano, no estado, que durante muitos anos dominou a política, foi incontestavelmente Pedro Velho de Albuquerque Maranhão. Assumiu o governo em 17 de novembro de 1899 e a ele voltou, eleito pelo Congresso estadual, para o quatriênio 1892-1896, depois do curto interregno do paulista Adolfo Afonso da Silva Gordo, preposto do governo provisório.

Pedro Velho organizou o estado, dando-lhe a feição que se manteve por toda a chamada República Velha. No poder, que exerceu por mais de uma vez, ou fora dele, como deputado federal ou senador, nunca deixou de ter influência decisiva nos negócios públicos. Embora esclarecido, foi um déspota. Com ele, porém, não caiu a oligarquia paternalista que se instalara nos postos de mando. Seu herdeiro político foi Augusto Tavares de Lira, que governou o estado de 1904 a 1906, quando assumiu o cargo de ministro da Justiça.

Dois governadores se destacaram nos últimos quatriênios da República Velha, José Augusto Bezerra de Medeiros, ardoroso defensor do parlamentarismo, e Juvenal Lamartine de Faria, em cujo governo instituiu o voto feminino no estado. O desenvolvimento se acentuara com o século XX. A Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte foi iniciada em 1904. Afonso Pena, presidente da república, inaugurou pessoalmente o primeiro trecho, de Natal a Ceará-Mirim, em 1906. A estação ferroviária de Natal é de 1917 e o cais das Docas, primeiro porto de desembarque marítimo, de 1932.

Revolução de 1930

O movimento de 1930 desmontou a máquina política, mas inaugurou, em seu lugar, o regime da intervenção federal: em 17 anos, o estado foi governado por 13 interventores, com um pequeno interregno constitucional, o do governo de Rafael Fernandes.

Em 23 de novembro de 1935 instalou-se em Natal um efêmero Comitê Popular Revolucionário, comunista. Ameaçado por tropas de Pernambuco e da Paraíba, dissolveu-se cinco dias depois. Houve combates no interior, sobretudo na serra do Doutor, onde se destacou Dinarte de Medeiros Mariz, futuro governador do estado e senador. Rafael Fernandes continuou no poder, transformado, porém, em interventor pelo advento do Estado Novo, em 1937, e sucedido pelo general Antônio Fernandes Dantas, em 1943. Depois de três outros governadores, só em 1947 assumiu o cargo o primeiro eleito em 12 anos, José Augusto Varela.

O Rio Grande do Norte sempre teve, em decorrência de sua privilegiada situação geográfica, uma singular importância estratégica: é a costa sul-americana mais próxima da Europa. Ou, como diziam os portugueses do reino: "é a mais perto terra que há no Brasil". Daí todas as experiências pioneiras da aviação transatlântica terem tido Natal como ponto de apoio, a começar pelo raid de Gago Coutinho-Sacadura Cabral, e o do Jaú, de Ribeiro de Barros e Newton Braga.

Quando da segunda guerra mundial, os americanos transformaram o raso tabuleiro do Parnamirim em uma grande base aérea, criando a "ponte atlântica para a África", necessária para o controle aliado do continente africano. Com a afluência súbita de militares de todos os quadrantes do mundo -- americanos, ingleses, franceses, russos e canadenses -- Natal transformou-se, progredindo em ritmo surpreendente. As jazidas de xelita (minério de tungstênio) da região do Seridó contribuíram para os arsenais de guerra dos Estados Unidos. Em 29 de janeiro de 1943 ocorreu em Natal o encontro histórico entre os presidentes Vargas e Roosevelt.

História recente do Rio Grande do Norte

Entre os marcos principais do começo da segunda metade do século ressaltam a criação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, instalada em 1959, e do Centro Rural Universitário de Treinamento e Ação Comunitária (crutac), de 1959, e do Centro Rural de 1966. Também na década de 1960, foi iniciada a construção da base de lançamento de foguetes em Barreira do Inferno.

O movimento militar de 1964 encontrou o Rio Grande do Norte governado de Aluísio Alves, político de Angicos, com longa militância no Congresso. Embora o governador apoiasse o regime militar desde a primeira hora e voltasse ao Congresso, em 1966, pelo partido governista, em 1969 teve seu mandato de deputado cassado e seus direitos políticos suspensos, acusado de corrupção. Em 1973 o processo em que fora indiciado foi arquivado por falta de provas.

Na área econômica, a industrialização do estado não caminhou no ritmo desejado, apesar dos investimentos realizados pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). A partir da década de 1970, porém, a exploração de petróleo passou a dar uma significativa contribuição para a economia estadual. Em 1977 o governo do estado submeteu à União um projeto, aprovado pelo Conselho Deliberativo da Sudene, relativo à implantação de um complexo químico-metalúrgico no Rio Grande do Norte.

Em 1990 a implementação de programas de irrigação e a descoberta de petróleo em Moçoró e na região das salinas prometeram boas perspectivas para a economia estadual. Infelizmente, as secas continuavam a afetar as atividades econômicas, principalmente a agropecuária, e a forçar o êxodo de populações rurais para o sul.

Por outro lado, crescia a passos largos a atividade turística, graças à proximidade com a Europa e existência de belíssimas praias e outros atrativos naturais, como as dunas de Natal. Ao mesmo tempo, o governo estadual promovia o desenvolvimento da indústria têxtil, baseada no algodão.

Cultura

Entidades culturais. O Rio Grande do Norte dispõe de importantes entidades culturais, entre as quais se destacam o Instituto Histórico e Geográfico que publica uma Revista desde 1903, a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras e a Associação Norte-Rio-Grandense de Astronomia, todas com sede na capital. Entre as bibliotecas, devem ser citadas as da Fundação José Augusto, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a Central, a do Museu Histórico e Geográfico e a Biblioteca Câmara Cascudo. A maior biblioteca pública do interior é a da Prefeitura Municipal de Moçoró.

Museus

Os mais importantes museus do estado são o Museu de Arte e História, do Instituto Histórico e Geográfico, conhecido como Museu do Sobradinho, o mais antigo e que possui preciosas coleções de arte sacra, popular e indígena, e de documentos históricos, e o Museu Câmara Cascudo, de antropologia. Destacam-se ainda o Museu de Arte Popular -- localizado no Forte dos Reis Magos --, o Museu Aristófanes Fernandes, de taxidermia, e o do Instituto de Biologia Marinha, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, todos na capital.

Acervo arquitetônico

O estado possui diversos monumentos tombados, entre os quais o mais importante é o Forte dos Reis Magos, marco inicial da ocupação do território e cujo bastião teve a construção iniciada em 6 de janeiro de 1598. Ainda na capital destacam-se a estátua de Augusto Severo, o busto de Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, o monumento à Independência, o obelisco em homenagem ao padre Miguelinho e a André de Albuquerque.
Natal, Capital do Rio Grande do Norte
Natal, Capital do Rio Grande do Norte

Turismo

Os principais pontos de atração turística do estado são, além do Forte dos Reis Magos, as praias de Pirangi, Ponta Negra, Areia Preta, do Meio, do Forte e Redinha. Nesta última existe um curioso sistema de dunas que corre paralelamente ao longo da costa, caracterizando-se por numerosa sucessão de capontas, isto é, verdadeiros lagos de água doce, cuja extensão chega até dez mil metros quadrados. Outras atrações turísticas são a lagoa Manuel Filipe, o farol de Mãe Luísa, a igreja de Santo Antônio, a capelinha dos Reis Magos, a feira livre de Alecrim, o cajueiro de Piranji, com copa de sete mil metros quadrados, em Piranji do Norte, a 26km da capital; e a rampa de lançamento da Barreira do Inferno, no município de Parnamirim, a vinte quilômetros da capital.

Folclore

Os principais eventos populares do estado são as exibições folclóricas: fandango, pastoris, lapinha, chegança (do ciclo do Natal), boi-calemba, bambelô, congo. Danças típicas são o serrote, um xote dançado por dois ou três pares apenas, e o baiano, uma dança viva com coreografia individual.

Na culinária destacam-se o acaçá, um bolo de fubá de milho ou arroz que é cozido com água e sal até ficar gelatinoso; a alambica, jerimum cozido com toucinho; a aritica, feijão com rapadura, e o aluá, uma bebida de origem indígena fermentada de abacaxi ou milho e açúcar.

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Luciano Mende