BRASIL - ASPECTOS SOCIOAMBIENTAIS DO BRASIL

Grandioso em sua diversidade socioambiental, mas também nas desigualdades sociais e ritmo de destruição do meio ambiente, o Brasil precisa resolver suas contradições para garantir a qualidade de vida de sua população

Brasil - Aspectos Socioambientais do BrasilBrasil - Aspectos Socioambientais do Brasil

País de dimensões continentais, o Brasil possui uma das biodiversidades mais ricas do Planeta, com 10% a 20% das espécies catalogadas até agora. Também é o País com o maior fluxo superficial de água doce no mundo - cerca de 12% do total -, sol o ano todo e uma zona costeira de milhões de quilômetros quadrados. O povo brasileiro compõe um grande mosaico de diversidade cultural: são imigrantes e seus descendentes, povos indígenas, afro-brasileiros, quilombolas, caiçaras, entre outros tantos exemplos de especificidades culturais e modos de vida. A exuberância socioambiental é motivo de orgulho dos brasileiros, que a elegem como diferencial de outras nações, além das belas paisagens, a cordialidade do povo, seus costumes e cultura.


O Brasil, porém, não chegou ao século XXI como um dos lugares megadiversos do Planeta por milagre. Isso aconteceu porque práticas tradicionais compatíveis com o ambiente, adotadas por povos que habitam há muito a totalidade do território, assim permitiram (ver Os Verdadeiros Campeões do Desmatamento, pág. 79). Mas o mesmo ser humano que mostra ser possível conviver em harmonia com a natureza, também comanda a destruição e põe em risco, através dos métodos dominantes de produção, a possibilidade de melhorar as condições de vida e o futuro do País.

Mesmo que as áreas protegidas em unidades de conservação integral representem cerca de 5,5% do território brasileiro, os ambientes estão em constante processo de degradação. O desmatamento na Amazônia brasileira tem aumentado continuamente desde 1991, em um ritmo variável, mas rápido: em 1995, houve um pico no desmatamento da região, considerado o maior da história; entre 2003 e 2004, foi registrado um novo recorde no índice, dessa vez seguido de quedas em 2005 e 2006 . O Cerrado, que contém um terço da biodiversidade brasileira, perde 30 mil quilômetros por ano, ou 2,6 campos de futebol por minuto de cobertura vegetal - um ritmo de devastação de 1,5% ao ano, superior ao da Amazônia, e que, se mantido, pode acarretar no com- pleto desaparecimento das paisagens naturais do Bioma até 2030 . Da Mata Atlântica, sobram menos de 8%; na Caatinga, 10% do solo está em processo de desertificação; o Pantanal enfrenta problemas graves; assim como a Zona Costeira (destruição de mangues, poluição da água, espécies pesqueiras ameaçadas etc.); e o Pampa, que sofre pressão com o avanço de monoculturas agrícolas e florestais.

 O avanço da degradação, além de comprometer a biodiversidade, afeta também as populações que vivem nesses ambientes. nas cidades, a qualidade de vida piora cada vez mais com o agravamento da poluição do ar e dos mananciais, do barulho, da falta de áreas verdes. Os povos que dependem de atividades de subsistência ligadas diretamente ao uso de recursos naturais, como pescadores e índios, cada vez mais enfrentam dificuldades para sobreviver de suas atividades tradicionais (em razão, por exemplo, da poluição da água, da mineração ilegal, da invasão de reservas para atividades como a exploração madeireira, dentre outras).

Apesar da abundância da água no território, sua distribuição é irregular, caracterizando regiões melhores abastecidas e regiões com graves problemas de seca, como algumas partes do nordeste. Além disso, a política de uso desse recurso tem comprometido sua disponibilidade no Brasil. Hoje, cerca de 40% de toda água retirada no Brasil é desperdiçada e a maior parte desse recurso vai para a agricultura, cujo índice de desperdício na irrigação chega a 60%. nas redes públicas de distribuição de água, o desperdício médio é de 40% do que sai das estações de tratamento. nas bacias hidrográficas, a poluição está fora de controle em vários estados.

Na agricultura, práticas não sustentáveis vêm causando danos irreversíveis ao solo. O consumo de agrotóxico cresceu 276% entre 1960 e 1991 e o uso de pesticidas para áreas plantadas cresceu 21,59% entre 1997 e 2000. Só no Estado de São Paulo, 4 dos 18 milhões de hectares de terra utilizá- veis estão em estágio avançado de degradação .

A produção de alimentos no País também tem muitos exemplos de insustentabilidade, entre eles práticas de pecuária intensiva e extensiva, que têm provocado aumento do desmatamento e contaminação das águas por efluentes de criações (bovina, suína e aves) e insumos químicos carregados pela erosão do solo. A produção de frutas “fora de época” também causa grande impacto ambiental, seja pela energia usada nas estufas ou pela intensificação dos transportes de longa distância (que requer mais rodovias e a pavimentação de trechos muitas vezes localizados em áreas florestais).

Mesmo com todos esses problemas, o rumo tomado pelo Brasil e por outros países em desenvolvimento conti- nua similar ao caminho trilhado por países desenvolvidos no que diz respeito aos padrões de produção e consumo. Estudos mostraram que seriam necessários mais dois ou três planetas de recursos para sustentar o padrão de consumo dos países desenvolvidos, se ele fosse estendido para os demais habitantes do mundo. Ao mesmo tempo, uma pesquisa do Instituto de Estudos das Religiões (Iser), sobre o que o brasileiro pensa do meio ambiente, detectou que, de 1992 a 2001, cresceu de 23% a 31% a porcentagem de brasileiros que consideram que nossos hábitos de produção e consumo precisam de grandes mudanças para conciliar o desenvolvimento com a proteção socioambiental.

Ainda assim, outros dados da pesquisa mostram que 50% da população não foi capaz de identificar qualquer problema ambiental no seu bairro. na região Centro-Oeste, por exemplo, onde a vegetação principal é o Cerrado – considerado em estado crítico de degradação –, 55% dos entrevistados disseram não haver ali nenhum problema ambiental. Uma das conclusões da pesquisa é que esta incapacidade dos brasileiros de detectar problemas socioambientais na própria região onde moram pode estar refletindo uma situação estrutural ligada à educação e que seria preciso aumentar os esforços de informação para o grande público sobre questões de meio ambiente e qualidade de vida. Dos entrevistados, 52% afirmaram não ler jornais, fazendo da televisão seu principal meio de informação (90%).

Em pesquisa mais recente o Ibope detectou que quatro em cada cinco brasileiros estão “muito preocupados” com os efeitos da mudança do clima, tema bastante de - batido na mídia. Se o problema do aquecimento global vem sendo amplamente divulgado e faz parte da consciência do brasileiro sobre as questões ambientais, a atitude individual parece ainda não fazer parte das medidas para mitigação do problema: entre os entrevistados que possuem carro (43%), apenas 11% aceitariam trocar o veículo a gasolina por um a álcool, combustível menos poluente.

Desigualdades

O Brasil continua sendo um dos países no mundo onde há mais desigualdade social. Atualmente, ocupa o 10º lugar em uma lista com 126 países e territórios, depois da Colômbia, Haiti e seis países da África Subsaariana, segundo o índice da desigualdade mundial de 2006, do PNUD. Apesar disso, houve avanços desde 2005 e o Brasil saiu da penúltima posição no ranking de distribuição de renda da América Latina – no último relatório, só a Guatemala estava em situação pior . Mas a desigualdade no Brasil não se resume a índices econômicos.

Dados do IBGE de 2010 mostram que os pardos e negros representam praticamente metade (49,5%) dos mais de 188 milhões de brasileiros e indicam também uma considerável queda no percentual de participação da população branca. Pela primeira vez em duas décadas de

levantamentos, os brancos não alcançam 50% da população total. Essa tendência é atribuída à revalorização da identidade de grupos historicamente discriminados (notadamente, negros e índios). no entanto, a discriminação da população negra e parda no País é maior do que as já acentuadas dife- renças existentes entre homens e mulheres, principalmente no mercado de trabalho. Os negros e pardos são quase 74% entre os mais pobres e só correspondem a pouco mais de 11% entre os mais ricos e a taxa de analfabetismo entre essa população é mais do que o dobro do mesmo índice para os brancos. Associando cor e faixa de idade, tem-se, por exemplo, que, em 2005, do total da população estudante entre 18 e 24 anos, 51% dos brancos já cursavam o ensino superior, enquan- to quase 50% de pardos e negros ainda cursavam o ensino médio.

Problemas Urbanos

A concentração da população nas cidades chegou a 81,2% em 2000, mais do que o dobro registrado em 1970 (30,5%). Mais de 107 milhões de pessoas somaram-se à população urbana em 40 anos, grande parte em função do êxodo rural. Essa expansão gerou e ainda gera altos custos de implantação de infra-estrutura (energia, transporte, saneamento, limpeza urbana, educação, saúde e lazer) para o setor público, já sem recursos. Para se ter uma idéia, estima-se que seriam necessários em torno de R$ 178 bilhões para universalizar o saneamento e o abastecimento de água no País até 2020. no entanto, os investimentos nos sistemas de abastecimento de água e esgotamento sanitá- rio, nos últimos oito anos, foram irregulares, podendo em um determinado ano superar a casa dos R$ 3 bilhões e em outro cair a valores muito menores.

A rapidez desse crescimento nas cidades produziu um déficit estimado em 6,6 milhões de domicílios, atingindo 20 milhões de pessoas aproximadamente. A urbanização desordenada também fez com que áreas de risco e de proteção ambiental fossem ocupadas como é o caso da Floresta da Tijuca, no Rio de janeiro, e dos mananciais da Região Metropolitana de São Paulo. Atualmente, há previsão de maiores investimentos em habitação e saneamento básico no plano do governo de aceleração do crescimento (PAC).

Outros problemas graves de infra-estrutura contribuem para a situação precária da maior parte das cidades brasileiras. Lixões são o destino final dos resíduos sólidos em 63,6% dos municípios brasileiros; quase 10% dos do- micílios brasileiros não estão ligados a redes de água, quase metade não dispõe de redes de esgoto e aproximadamente 80% do que se coleta não é tratado. Os investimentos públicos para o saneamento básico caíram de 0,38% do PIB nos anos 1980 para 0,27% em 2004 e, em razão das condições sanitárias inadequadas, doenças veiculadas pela água geram um custo anual calculado em R$ 2 bilhões para o sistema de saúde.

Alternativas

Diante da situação mundial de que o desenvolvimento tem gerado miséria e concentração de renda, além de processos de produção e consumo insustentáveis no longo prazo, é necessário que o Brasil reconheça esse cenário e reflita sobre sua inserção nele.

Há, por exemplo, formas de estimular a mudança am- biental no processo de produção de alimentos e produtos. A “produção mais limpa”prevê iniciativas como a análise do ciclo de vida, que considera o produto desde sua fabricação até sua destinação final, privilegiando o reaproveitamento desse resíduo com alternativas de reciclagem e reuso. Outra iniciativa é a con- sideração dos impactos ambientais do produto no momento da criação e a na prestação de serviços que podem reduzir o impacto ambiental dos processos de produção.

A mudança de hábito no consumo já dá sinais positivos no mercado de alimentos orgânicos, por exemplo. no Brasil, o crescimento da produção desses alimentos tem sido de 40% a 50% ao ano, o que tem contribuído para o barateamento dos produtos - em alguns casos, os orgânicos ainda custam 20% a mais que os alimentos produzidos por métodos tradicionais. Em 2000, a demanda por esses produtos na Região Metropolitana de Curitiba (PR), por exemplo, foi 35% maior do que a oferta. A cidade de Bauru (SP) é outro exemplo aonde o consumo de orgânicos vem crescendo: em 2006, aumentou em 5%, o que tem estimulado produtores a aderirem a modos alternativos de produção. Além do baixo impacto ambiental desse tipo de cultura, ela traz benefícios sociais, já que 70% desses produtos são fabricados em pequenas propriedades familiares.

Investir na formação e no acesso à informação dos brasileiros também permite a difusão de novos valores, que incluem a possibilidade de reivindicação e pressão política, a mudança de hábitos para melhorar a relação entre o homem e o meio ambiente e o incentivo à conservação da diversidade socioambiental brasileira.

Você sabia?

Que o Brasil é o quinto maior país do mundo em território? Está atrás da Rússia, China, Canadá e Estados Unidos.

Também é o quinto mais populoso, atrás da China, Índia, Estados Unidos e Indonésia

E figura em 10º lugar na lista dos países com mais desigualdade social.

O grau de escolaridade é o principal fator de transformação na situação social brasileira. Os últimos dados disponíveis, de 1996, mostram que entre os 10% mais pobres da população, 38% tinham educação superior à do pai. na faixa dos 10% mais ricos esse valor era de 55%.

Trabalhadores brasileiros com mais anos de educação ganham até 6,5 vezes mais, na média, do que a mão-de-obra menos qualificada.

No Brasil, pelo menos 30% da população está abaixo da linha da pobreza, apesar de algumas melhoras na distribuição de renda nos últimos anos .
O Brasil é o segundo maior consumidor mundial de carne bovina...
E o quinto maior consumidor de petróleo no mundo.

O Brasil vai estabilizar sua população pelo meio deste século, quando terá ultrapassado 250 milhões de habitantes.

Cerca de 80% dos recursos pesqueiros nacionais estão ameaçados pela sobrepesca

Embora o desmatamento na Amazônia tenha caído em 2005 e 2006, está no mesmo nível de 1994 (quando começou a crescer e culminou em 1995, com a maior taxa de desmatamento já registrada). 

Grande parte dos especialistas atribui a redução recente à queda no avanço da soja na região, por causa de baixos preços de exportação

Luciano Mende