ETNIAS - CONCEITOS GERAIS DE ETNIAS

Etnias

Etnias

As pessoas que integram uma etnia geralmente compartilham vários atributos, como espaço geográfico, língua, costumes e valores, e reivindicam para si a mesma designação e ascendência. Mas sempre há nisso grande dose de subjetividade. Daí ser difícil estabelecer fronteiras claras entre as etnias e quantificar o número de grupos étnicos existentes no mundo. A língua, por exemplo, que parece ser um critério tão objetivo, é inadequada para determinar as etnias se tomada isoladamente, pois diversos grupos étnicos podem utilizar o mesmo idioma. Também o fato de um grupo ser designado como etnia – e, como tal, possuir nome específico (etnômio) – não é garantia de que realmente o seja. Na África Subsaariana são registradas mais de mil etnias, mas muitas delas foram designadas pelos colonizadores europeus e não correspondem à maneira como os próprios grupos se veem.

A definição – A palavra etnia vem do grego ethnos, que significa povo ou nação. Na Grécia antiga, a denominação era utilizada em oposição a pólis, ou cidade: etnias eram todas as comunidades de cultura grega que não habitavam os núcleos urbanos. Na Idade Média, o termo passou a designar os pagãos, ou seja, os não-cristãos. No século XIX, a palavra etnia foi apropriada pelas ciências sociais e conferida aos povos considerados primitivos. Só recentemente o conceito foi ampliado, de modo a englobar não apenas o outro (o objeto de que se fala, o habitante supostamente não-civilizado dos países coloniais e dependentes), mas também a própria pessoa (o sujeito que fala, o habitante supostamente civilizado das metrópoles hegemônicas).

Teorias racistas – Esse novo conceito de etnia se desenvolveu no século XX, em oposição às teorias racistas, que procuravam fundamentos de ordem biológica para justificar a dominação de um grupo humano sobre outros. A ciência considera incorreto falar em raças quando se trata de seres humanos. Todos os homens pertencem ao gênero Homo, à espécie Homo sapiens e à subespécie Homo sapiens sapiens. Eventuais variações genéticas são mínimas e insuficientes para configurar diferenciações raciais.Os homens agrupam-se socialmente, e as semelhanças e diferenças que estabelecem entre si decorrem do processo histórico. São sempre culturais, jamais naturais. Fundamentalmente, um indivíduo pertence a determinada etnia porque acredita nisso, e tal crença é compartilhada pelos demais indivíduos que compõem o grupo.

Fronteiras artificiais – A existência de vários grupos étnicos no interior das mesmas fronteiras nacionais é a situação mais comum hoje no mundo. E isso tem originado graves conflitos, como os que ocorreram entre as populações da antiga Iugoslávia. Existem, em contrapartida, etnias que se espalham por diversos territórios nacionais. É o caso dos curdos, na região do Oriente Médio. Na África, o desacerto entre as fronteiras étnicas e as fronteiras nacionais é resultado da partilha do continente pelas potências colonialistas européias. Essas dividiram politicamente a África de acordo com seus interesses econômicos, sem respeitar os limites étnicos historicamente consolidados na região. A partir daí, cada colônia adquiriu dinâmica própria, e o processo de independência não conseguiu corrigir essa distorção.

Afirmação étnica – A diversidade de etnias em um mesmo território não provoca necessariamente problemas entre elas. Existem vários exemplos de convivência e respeito mútuo. As diferenças podem ser utilizadas, porém, para criar ou reforçar conflitos que atendam a interesses econômicos e políticos. Foi o que ocorreu com os hutus e os tutsis em Ruanda, cuja guerra provocou mais de 1 milhão de mortes em 1994. Os conflitos de caráter étnico ganham importância a partir da década de 1960, com a desagregação dos impérios coloniais. E o fenômeno vem sendo notavelmente reforçado pelo processo de globalização. À medida que caem as barreiras à circulação de mercadorias e capitais, as nações deixam de ser o espaço quase exclusivo da atividade econômica, e os Estados perdem parte da sua superioridade política. Afrouxados os laços nacionais e o controle estatal, as comunidades locais – cenário por excelência da afirmação étnica – adquirem nova e desafiadora vitalidade.

De onde vêm alguns grupos étnicos

Sérvios, croatas, bósnios – Descendem dos eslavos, que, a partir do século V, se deslocaram da atual Ucrânia para o que é hoje o Estado da Sérvia e Montenegro. O fluxo migratório dividiu-se: um ramo estabeleceu-se nas terras altas, originando os sérvios; outro se fixou no litoral, dando origem aos croatas. Os bósnios diferenciaram-se com a conversão ao islamismo.

Bascos – Descendem de uma das populações mais antigas da Europa, cujo idioma é muito anterior às línguas indo-européias. Por volta do ano 830, criou-se o reino basco de Navarra. No século XVI, uma parte dele foi integrada à França; outra, à Espanha. O governo do general espanhol Francisco Franco, que se estendeu de 1939 a 1975, procurou, sem sucesso, assimilar os bascos à força.

Hutus, tutsis – A região onde se localizam Burundi e Ruanda foi ocupada sucessivamente por tvás, hutus e tutsis. Os dois últimos grupos têm origem comum e falam a mesma língua, embora se identifiquem como povos diferentes. O colonialismo alemão e belga acirrou a rivalidade entre eles, concedendo privilégios à minoria tutsi, o que provocou enorme ressentimento nos hutus após a independência.

Curdos – Maior grupo étnico sem Estado do mundo, compreende 26 milhões de pessoas, espalhadas por Turquia, Iraque, Irã, Síria e Armênia. O Tratado de Sèvres (1920) estabeleceu a constituição de um Estado curdo, com soberania limitada, mas essa idéia jamais foi implementada. Continua sendo, porém, uma referência para os nacionalistas curdos, que lutam por sua efetivação.

Maoris – Originários de ilhas polinésias, são os primeiros habitantes da Nova Zelândia, que chamam de Aotearoa, ou Terra da Longa Nuvem Branca. No século XIX, os colonizadores britânicos os expulsaram de suas terras. A exemplo do que ocorre com os aborígines australianos, cresce entre os maoris a luta para que o governo neozelandês devolva seu território ancestral.

Quíchuas – Principal grupo étnico do antigo Império Inca (que se estendia da atual Colômbia ao norte da Argentina e do Chile), os quíchuas instalaram nas terras altas do Peru no século XIII e dominaram as outras etnias locais. Os espanhóis saquearam o Império Inca e massacraram seus habitantes. Os sobreviventes mantêm sua identidade no Equador, no Peru e na Bolívia.

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LUCIANO MENDE Farias