PIAUÍ: GEOGRAFIA, HISTÓRIA, ECONOMIA, SOCIEDADE E CULTURA PIAUIENSE

PIAUÍ: GEOGRAFIA, HISTÓRIA, ECONOMIA, SOCIEDADE E CULTURA PIAUIENSEPiauí: Geografia, História, Economia, Sociedade e Cultura Piauiense 

A conquista do território do Piauí processou-se graças à expansão das fazendas de gado, a partir das existentes no vale do São Francisco. Tão ligada ficou a imagem do gado aos campos piauienses, durante séculos, que no auto popular, quando o boi morria, logo vinha o refrão consolador: "Vamos buscar outro, ó maninha, lá no Piauí." Situado na região Nordeste, na transição entre a Amazônia, o sertão semiárido e os chapadões do Brasil central -- e com mais de quatro quintos de sua área incluídos no Polígono das Secas --, o estado do Piauí abrange uma área terrestre de 251.273km². Limita-se ao norte com o oceano Atlântico, a oeste com o Maranhão, a sudoeste com o Tocantins, ao sul com a Bahia e a leste com Ceará e Pernambuco. Sua capital é Teresina.

Geografia física do Piauí

Geologia e relevo. O Piauí apresenta relevo modesto, com topografia regular. Cerca de 92% do território se acham abaixo de 600m de altitude e 53% abaixo de 300m. Quatro unidades compõem o quadro morfológico: a baixada litorânea, o planalto de chapadas e cuestas, a planície do rio Parnaíba e o pediplano cristalino. A baixada litorânea, no norte do estado, compreende uma faixa de terrenos arenosos e baixos, dominados por tabuleiros areníticos. Sua porção ocidental é formada pelo delta do rio Parnaíba. O planalto de chapadas e cuestas corresponde à parte oriental da bacia sedimentar do Meio-Norte. Na parte central do estado, as camadas geológicas apresentam disposição horizontal e formam chapadas com altitudes que vão de 300 a 600m. Na parte oriental, as camadas apresentam-se inclinadas e formam cuestas, com altitudes de 500 a 700m. A mais importante delas se desenvolve ao longo do limite com o Ceará, onde a sua frente forma a serra da Ibiapaba e marca o limite oriental da bacia sedimentar. A planície do Parnaíba, estreita e alongada, junta-se ao norte com a baixada litorânea e no interior se prolonga para sul e leste.

Clima. Dois tipos de clima ocorrem no Piauí, o AW e BSh de Köppen. O clima AW, tropical com chuvas e invernos secos, domina a maior parte do estado. Registra temperaturas médias anuais de 25 a 27o C e pluviosidade anual de 700mm, no sul, e 1.200mm, no norte. O clima BSh, semi-árido quente com chuvas de verão e invernos secos, ocorre na porção sudeste do estado. Registra médias térmicas de cerca de 24o C e pluviosidade de aproximadamente 650mm, sujeita a irregularidades.

Hidrografia. Toda a rede de drenagem do Piauí pertence à bacia hidrográfica do rio Parnaíba, o principal do estado, cujo curso forma o limite com o Maranhão. Integram-na os afluentes e subafluentes da margem direita do Parnaíba, entre os quais se destacam, como de mais longo curso, o Longá, o Poti, o Canindé e o Gurguéia. Somente esses e o Parnaíba são rios perenes; os demais são temporários, ou seja, deixam de correr na estação seca. O Parnaíba teve seu curso interrompido, a montante de Floriano, pela barragem da usina hidrelétrica Presidente Castelo Branco (ex-Boa Esperança), o que deu origem a um grande lago artificial.

Flora e fauna. Recobrem o Piauí quatro tipos de formação vegetal: a caatinga, nas porções sul e sudeste do estado; o cerrado e o cerradão (mais denso que o cerrado), no norte e no leste; e a floresta, bastante devastada, numa estreita faixa a oeste, ao longo do Parnaíba, e a leste, sobre a serra de Ibiapaba. Tanto nas áreas de floresta como nas do cerrado encontram-se extensos carnaubais e babaçuais. Outras palmeiras e espécies tanantes e oleaginosas estão presentes nesses lugares, em formações menos importantes. A fauna varia de acordo com essas diferenças da flora e corresponde à encontrada no cerrado e na caatinga dos estados limítrofes.

População do Piauí

Em seu processo de colonização, o Piauí recebeu grande contingente de brasileiros de outros estados, sobretudo da Bahia e de São Paulo. Ainda assim, a densidade demográfica do estado permaneceu sempre muito baixa. Também é notório, no mapa demográfico do Piauí, o predomínio constante da população rural sobre a das cidades. As áreas de maior densidade demográfica correspondem ao vale inferior do Parnaíba e à região drenada pela bacia do Canindé, que são as principais áreas agrícolas do estado. No sul do Piauí, o povoamento é rarefeito.

O território piauiense se distribui entre as áreas de influência das cidades de Fortaleza CE (o norte) e Recife PE (o sul). Ao norte a atuação de Fortaleza se realiza por meio de Teresina e Parnaíba. Ao sul, Recife atua por intermédio de Floriano. Outras cidades maiores do estado são Picos, Campo Maior, Piripiri, Oeiras, Floriano, Barras, São Raimundo Nonato, Pedro II e União.

Economia do Piauí

Agricultura e pecuária. A economia do Piauí assenta na agricultura e na pecuária, complementadas pelo extrativismo vegetal. As principais culturas agrícolas, localizadas no vale do Parnaíba e na bacia do Canindé, bem como em torno da cidade de Picos, são o algodão arbóreo, o feijão, o milho, o arroz e a mandioca. Existem ainda plantações consideráveis de cana-de-açúcar, laranja, banana, alho e, em quantidades menores, coco-da-baía, fumo, tomate, cebola e amendoim. É típica da região uma extração vegetal que envolve várias palmáceas, como o tucum, a carnaúba e o babaçu, e também a das castanhas de caju, cascas de angico e sementes de oiticica.

A pecuária é tradicional no Piauí, responsável que foi pela ocupação do território durante a época colonial. É praticada em todo o estado, em caráter extensivo nas áreas de cerrado, e em caráter intensivo na região de Campo Maior. Um dado à parte é o da apicultura piauiense, que logo se tornou a primeira do Nordeste e uma das primeiras do país.

Mineração e indústria. O subsolo piauiense é ainda pouco explorado. Foram localizadas substanciais reservas de mármore menores de gipsita, sal-gema, calcário e argila na área litorânea (norte do estado), e vermiculita. Ocorrem ametistas no município de Batalha. O potencial hidráulico da bacia do Parnaíba foi aproveitado pela usina Presidente Castelo Branco (Boa Esperança), concluída em 1990.

No final do século XX, a indústria do Piauí ainda não era significativa. Compreendia, com números modestos, os setores químico (para produção de óleos vegetais), têxtil (para a fiação e tecelagem do algodão), de gêneros alimentícios (açúcar, carne, toicinho, sucos e doces de frutas), de materiais de construção (cal, telhas e tijolos), couros e peles.

Transportes. Estradas de ferro da Rede Ferroviária Federal ligam Teresina às capitais do Maranhão e do Ceará e, internamente, às cidades de Parnaíba, Piripiri e Campo Maior. Essa pequena rede ferroviária, que chega ao porto de Luís Correia, é de instalações obsoletas e movimento reduzido.

A cidade de Picos é o ponto inicial da rodovia Transamazônica, que atravessa o estado até Floriano, na divisa com o Maranhão. Picos é importante entroncamento de rodovias federais: a BR-116 (Teresina-Picos), a BR-020, a BR-230 e a BR-407, o que permite a ligação do estado a Brasília e às demais capitais do país.

O porto de Parnaíba é o principal do estado e também o terminal da navegação do rio Parnaíba. A aviação comercial conta com o aeroporto de Teresina e campos de pouso em cidades do interior.

História do Piauí

O povoamento do Piauí deu-se a partir do centro para o litoral. É certo que no início do século XVII Martim Soares Moreno (o fundador do Ceará) percorreu a foz do Parnaíba -- o rio Grande dos Tapuias, como era então conhecido. Do Maranhão para Pernambuco partiram, por terra, expedições militares: uma, comandada por Baltasar Pestana, e outra, mais tarde, com André Vidal de Negreiros.

A história do Piauí, contudo, tem como pioneiros os criadores de gado. Ao espírito aventureiro e destemido dos vaqueiros do São Francisco deve-se a efetiva descoberta do vale, sua conquista e colonização. Os ascendentes remotos desses vaqueiros foram os bandeirantes paulistas e os sertanistas baianos. Em seu isolamento étnico, cedo se cristalizaram -- a exemplo dos antigos paulistanos -- em um tipo racial definido, que novos cruzamentos não vieram perturbar. Entregues à atividade rude do pastoreio, criaram-se fortes e arrojados, dando origem a uma sociedade livre, movediça e enérgica.

Foi desse núcleo de irradiante força de expansão que partiram os verdadeiros descobridores, conquistadores e povoadores do vale parnaibano. O próprio nome Parnaíba, com que foi batizado o maior e mais importante acidente geográfico da primitiva capitania, é uma confirmação dessa prioridade. Escolheu-o Domingos Jorge Velho em homenagem à cidade paulista homônima, terra de seus antepassados, e que foi em outros tempos um dos mais intensos focos de bandeirismo. A mesma origem tem o antigo município de Paulista, no sul do estado.

Desbravamento. A Casa da Torre, enorme propriedade na capitania de Pernambuco, foi a grande inspiradora desse movimento. Ergueu-a Garcia d'Ávila -- o primeiro do nome -- na baía de Taquara, debruçada sobre o mar. O aventureiro lusitano compreendera o dilema do colonizador nordestino. Enquanto no sul o contraforte da serra deixava o bandeirante ao abrigo das incursões dos corsários, que esbarravam impotentes ante a muralha de granito, o nordeste era um campo aberto à invasão. O homem tinha que se prender ao litoral para defesa das fundações. Garcia d'Ávila, porém, não faria o mesmo. Com pedras, cal de mariscos e azeite de peixe, plantou na costa as raízes poderosas de seu feudo, a cuja sombra os rebanhos pastariam tranqüilos.

A Casa da Torre era, assim, a um tempo, a fortaleza contra o invasor e a pousada garantida dos bandeirantes-vaqueiros. Sob sua proteção, o conquistador era livre para a conquista. Mergulhou nos sertões, tangeu os rebanhos de gado e espraiou-se pelos tabuleiros, em sua marcha lenta e perseverante. Desse modo, atingiu o São Francisco.

Em quatro gerações de conquistadores, o curral transformara-se em império: os senhores da Torre dominavam de trezentas a quinhentas léguas de terra. Foi quando um Garcia d'Ávila sonhou conquistar o Piauí. A invasão holandesa, ao desviar para o litoral as armas dos sertanistas, retardara de décadas o desbravamento do vale parnaibano. Expulso o invasor, o vaqueiro retornaria para o campo.

O vale do São Francisco, inflado de currais, sugeria novas jornadas aos conquistadores de pastagens. Para o norte, no sertão plano a perder de vista, demoravam as chapadas verdes e extensas. O Piauí convidava os vaqueiros. Os criadores dos Campos Gerais, passando do São Francisco para as nascentes do Piauí e do Gurguéia, alcançaram o Parnaíba e por meio deste se estenderam por todo o estado, de modo a encher de gado suas pastagens e semear currais ou fazendas ao longo do vasto território.

Enquanto as correntes imigratórias oriundas do Maranhão se detinham ante o ímpeto das águas do Parnaíba, que não logravam vencer de subida, e as levas do Ceará se amorteciam na cinta isoladora das serras, os vaqueiros baianos, encabeçados pelos Ávilas ou por seus capitães rendeiros, a exemplo de um Domingos Afonso Mafrense ou de um Jorge Velho, desciam ao sabor das águas e ao revés do sentido geral da civilização brasileira, da periferia para o interior.

Colonização. Para isso, o meio proporcionava-lhes todas as facilidades: o caudal dos rios, em cujas águas transitavam; campos extensíssimos e livres para os rebanhos; frutas selvagens e caça para o alimento, quando não lhes bastasse o próprio gado para assegurar-lhes a subsistência; e, finalmente, como dádiva providencial, a carnaúba.

A importância dessa palmeira, de utilidade incomparável na história da economia piauiense, não provinha, para os colonizadores, da cera que dela se obtém -- e cujo aproveitamento só posteriormente se verificaria, com a indústria extrativa -- mas sobretudo de seu uso na construção dos currais, nas chapadas de flora raquítica onde, além da carnaúba, muitas vezes só se achavam talos e cipós.

Valeram-se ainda da carnaúba para construir suas casas e ranchos, ao aproveitar desde o tronco para vigas, esteios e paredes, até a palha, para cobertura de teto e as divisões. Com ela, entre outros objetos úteis, faziam esteiras, chapéus de palha, cofos, velas, peneiras e cordas. Outras palmeiras autóctones prestaram-lhes auxílio: com o tucum faziam redes e com o buriti as balsas em que desciam os rios.

Em tal ambiente não se podia desenvolver outra sociedade. A natureza construíra, ali, uma pátria de vaqueiros. Na feição dispersiva e rarefeita característica desses organismos sociais, encontra-se a explicação de sua linha evolutiva -- das qualidades e defeitos de sua população, de sua estrutura econômica, social e política, de sua fisionomia moral e religiosa. Com a extrema mobilidade dos boiadeiros, todo o território piauiense estava cedo conhecido e pontilhado de fazendas e currais, que seriam o núcleo de futuros povoados, vilas e cidades.

Apesar de seu crescimento desordenado e prematuro, a população perdeu a homogeneidade e a continuidade de ação. Constituiu-se em dispersiva pluralidade de núcleos, isolados por extensos desertos. As conseqüências dessa rarefação foram imediatas nas dificuldades de contato decorrentes da deficiência aguda dos meios de transporte.

Ao sul, especialmente, onde o Parnaíba apresenta melhor navegabilidade, essa premência atuou de maneira particularmente intensa. Embora sendo a zona mais fecunda, mais rica e mais amena de todo o vale, tornou-se a mais despovoada e inculta. Os colonizadores, ao fugir o melhor possível ao problema de transporte, desciam o rio até onde a navegação se tornava franca, para aí se fixarem de preferência.

Economia. Ainda aqui foi o gado a salvação providencial da ruína completa da região. Ante a gravidade do problema de transporte, era a atividade pastoril a única capaz de sobreviver. Para buscar mercados longínquos, das capitanias vizinhas, só mesmo uma mercadoria semovente poderia evitar a paralisação da vida econômica piauiense.

As perdas eram enormes, mas sempre restava alguma coisa do esforço despendido. Não tardou, porém, que um erro administrativo viesse agravar ainda mais o problema. Ante o abuso de alguns grandes sesmeiros, entre os quais avultava a Casa da Torre -- que, só entre o São Francisco e o Parnaíba, dominava setenta léguas de terra --, intensificou-se a vigilância fiscal dos representantes de el-rei.

Como seu gado não dava para encher tamanhas extensões, os sesmeiros arrendavam sítios e impunham aos moradores "grandes vexações, cobranças de rendas e foros". Depois de o Tesouro português achar que, certamente, esses foros eram rendosos e deviam caber à coroa, o Conselho Ultramarino tomou sucessivas medidas para a desapropriação das sesmarias, que pretendia fracionar, para distribuir "a porção de cem braças quadradas por indivíduos ou famílias, preferindo-se sempre aqueles que as estivessem desfrutando com lavouras".

Agravaram-se aos poucos as lutas entre posseiros (vaqueiros e agricultores) e os grandes senhores beneficiados pelas concessões de sesmarias. Os privilegiados sesmeiros ficavam mesmo pela Bahia e Pernambuco e nem chegavam a conhecer seus imensos feudos no Piauí. Outra carta régia estabeleceu prazo de dois anos, aos sesmeiros, para a demarcação de suas terras, sob pena de ficarem elas devolutas. Em 1715 o Piauí foi anexado ao Maranhão e, em 1718, tornou-se capitania subordinada ao Maranhão.

O índio. No Piauí, o índio domesticado não foi um inadaptado, como ocorreu em outras províncias. Não teve de suportar o eito. Deram-lhe cavalo e, com o tempo, transformaram-no em vaqueiro. João Pereira Caldas (primeiro governador da capitania), em carta ao ministro de Ultramar, registra a ausência, ali, de preconceito racial: "Neste sertão, por costume antiqüíssimo, a mesma estimação têm brancos, mulatos e pretos, e todos, uns e outros, se tratam com recíproca igualdade."

Sem preconceito racial, mas tentado por novas terras, o branco fazia guerra ao "gentio corso". Centenas de tribos, para fugir ao massacre, recuaram para o interior do Maranhão e Goiás. Gueguês, tremembés, acaroás e arains conheciam esse novo flagelo, mais cruel que a seca de 1723, que se prolongou por quatro anos.

A perseguição foi contínua, malgrado a lei de D. José I, que declarava livres os índios do Pará, Maranhão e Piauí: "que lhes dessem todo o favor de que necessitassem, até serem constituídos na mansa e pacífica posse das referidas liberdades, fazendo-lhes repartir as terras competentes para sua lavoura e comércio". Foi D. José, assessorado pelo marquês de Pombal, o primeiro governante a se interessar por esses desfavorecidos. Pena que suas ordens não fossem cumpridas e que os pobres do estado continuassem incontáveis ante a minoria de poderosos sesmeiros.

Governadores da capitania. Independente do Maranhão em 1758, a capitania teve como primeiro governador João Pereira Caldas. O local escolhido para sede do governo foi a vila da Mocha (outrora uma das fazendas do Mafrense, também chamado Domingos Sertão), elevada então à categoria de cidade. A capitania, com Pereira Caldas, passou a chamar-se São José do Piauí, em homenagem ao rei D. José, e Mocha fez-se Oeiras, para glória do primeiro-ministro do rei, o marquês de Pombal.

Hábil político, como atestam essas sutilezas toponímicas, foi também Pereira Caldas um bom administrador. Construiu os primeiros edifícios públicos da capital e num só ano percorreu o estado, do extremo sul ao extremo norte. Fundou as vilas de Paranaguá, Jerumenha, Valença, Campo Maior, Marvão e Parnaíba. Cartas régias ditavam instruções sobre a urbanização das nascentes vilas: com praças e ruas largas, bem traçadas, e de modo que as casas "sejam sempre fabricadas na mesma figura uniforme, pela parte exterior, ainda que na outra parte interior as faça cada um conforme lhe parecer, para que dessa sorte se conserve a mesma formosura". Com esse pretexto urbanístico o marquês de Pombal executava sua reforma social e a integração de todos na comunidade. Pereira Caldas procedeu ao primeiro censo da capitania. Em seu governo deu-se também a expulsão dos jesuítas.

No fim do século XVIII, o Piauí teve um notável governante na pessoa de João de Amorim Pereira, administrador honesto e escrupuloso. Certa ocasião um precipitado vereador de Parnaíba enviou a Amorim um par de fivelas de ouro, como presente. Ele não só as devolveu como expressou sua reprovação em ofício ao presidente da câmara daquela vila: "e o repreenderá severa e asperamente do temerário e atrevido arrojo que ele teve de fazer-me semelhante presente, atacando por um modo tão escandaloso a minha honra e inteireza".

Independência e império. O 7 de setembro de 1822 conflagrou a província, onde já havia um movimento separatista liderado, em Oeiras, por Manuel de Sousa Martins. O movimento estourou, afinal, em Parnaíba, que proclamou sua independência em 19 de outubro. Seu chefe foi o juiz João Cândido de Deus e Silva, secundado por Simplício Dias e outros. O grito da Parnaíba repercutiu em Campo Maior e Piracuruca, que também juram fidelidade ao príncipe D. Pedro.

O governo de Oeiras mandou marchar sobre Parnaíba o comandante das armas da província, major João José da Cunha Fidié. Com a aproximação das tropas de Fidié, os patriotas parnaibanos, sem meios para a defesa da cidade, refugiaram-se no Ceará e pediram o apoio dos cearenses. Fidié, desconhecedor das manhas políticas, apenas bom soldado da legalidade, esqueceu-se de deixar tropas em Oeiras e esta, aliviada, proclamou adesão ao príncipe, em janeiro de 1823, e pediu ajuda a cearenses e baianos. Fidié deixou então Parnaíba em demanda de Oeiras. Piauienses e cearenses foram encontrá-lo nos campos do Jenipapo, em Campo Maior. Os combatentes patriotas eram cerca de três mil, número superior ao das tropas do major luso, mas careciam de tática militar e por isso aceitaram a luta em campo aberto.

A batalha foi sangrenta. Os independentes perderam mais de 200 homens e foram vencidos. Mas a vitória não serviu a Fidié que, no combate, perdeu sua bagagem de munição. Os campo-maiorenses, em revide, roubaram-lhe a munição. Fidié, sem fogo, desistiu de tomar Oeiras e refugiou-se em Caxias, no Maranhão, de onde os patriotas o foram arrancar. Assim o Piauí fez sua independência.

O movimento que, em 1824, se alastrou de Pernambuco ao Ceará atingiu apenas as vilas de Parnaíba e Campo Maior, que se negaram a prestar juramento à nova constituição outorgada por D. Pedro I. Os chefes do movimento foram os mesmos que em 1822 proclamavam a independência da Parnaíba. O major José Francisco de Miranda Osório partiu para Oeiras em pregação patriótica. Tornara-se republicano convicto e conseguiu adeptos. Mas não sabia o que, em Oeiras, o povo sabia, isto é, que a confederação já tinha sido derrotada. Ao chegar a Oeiras, foi preso.

A revolta que eclodiu no Maranhão em 1840, a balaiada, empolgou os sertanejos, ansiosos por uma reforma que lhes trouxesse melhores dias. No Piauí, ela prolongou-se por quase dois anos, em forma de guerrilhas e emboscadas, e atingiu principalmente os municípios à margem do Parnaíba, além de Piracuruca, Jerumenha, Gilbués e Parnaguá, onde a luta foi mais intensa.

Em 1852 a província ganhou uma nova capital, Teresina, situada entre os rios Parnaíba e Poti. Em 1792, o governador Antônio de Noronha já pensara em mudar a capital, de Oeiras, para um local à margem do Parnaíba, ou mesmo para Parnaíba, vila de melhor comércio e já então mais importante que a velha capital. Esse feito coube porém ao conselheiro Saraiva que, naquele tempo, ainda não era o Conselheiro, como é conhecido na história do Piauí, mas o doutor José Antônio Saraiva, moço de 27 anos.

Saraiva fez boa política na presidência da província e em janeiro de 1852 conseguia eleger uma assembléia "saraivista" e, assim, transformar em lei o projeto da mudança. Em agosto do mesmo ano Saraiva despedia-se de Oeiras e instalava-se em sua nova cidade, que recebeu o nome em honra da imperatriz do Brasil, Teresa Cristina.

Abolição e República. O movimento para a abolição da escravatura começou em 1870, quando foi fundada em Teresina uma sociedade emancipadora. A instalação dessa sociedade foi solenizada com a alforria de dez jovens escravas. No orçamento da província incluiu-se uma verba para a libertação de cativos. Em 1871, foram declarados livres os escravos que pertenciam às antigas fazendas de gado, criadas pelo Mafrense. Nas vilas de Barras e Jaicós fundaram-se também sociedades emancipadoras e, em julho de 1844, Jaicós declarava livres os seus escravos.
À notícia da proclamação da república reuniu-se o povo de Teresina no Teatro da Concórdia. No dia 16 de novembro, de uma das janelas do prédio do telégrafo, o telegrafista e um capitão se revezaram em discursos candentes e terminaram por proclamar a República do Piauí, mas seu presidente logo foi deposto e um governo provisório organizou-se. Tornou-se estado, promulgou sua constituição (1891) e Gabriel Luís Ferreira foi seu primeiro governador.

Com a república, o Piauí entrou num período de mais de trinta anos de relativa tranqüilidade, apesar da ameaça de revolução, em 1916, no governo Miguel de Paiva Rosa. Este fora acusado de fraudar as eleições em favor do candidato situacionista. A Câmara reconheceu a vitória do candidato da oposição e Miguel Rosa, sem contar com o apoio de seus correligionários, asilou-se no quartel da força federal.

Em 1922, o governador João Luís Ferreira mudou a sede do governo para a chácara de Karnak, onde passara a infância. Era a época do "coronelismo" por excelência. Só o "coronel" decidia os destinos dos candidatos, a eleição era a "bico de pena" e o eleitor, mais do que nunca, "de cabresto". Assim foi até 1930, quando surgiu no país a Aliança Liberal. O Piauí foi então um dos primeiros estados a se rebelar contra o sistema vigente.

Na madrugada de 4 de outubro de 1930, o desembargador Vaz da Costa, ajudado por um grupo de sargentos, tomou os quartéis do Exército e da polícia estadual e depôs o governador. Vitoriosa em todo o país a revolução de 1930, o estado passou a ser governado por interventores nomeados pelo governo federal. Em abril de 1935 houve eleições, mas em 1937, com o Estado Novo, voltou a ter interventores. Reintegrado o país ao regime democrático, de 1947 a 1963 o Piauí elegeu os governantes pelo voto direto.

Após o golpe militar de 1964, foi mantido no cargo o governador eleito no ano anterior, Petrônio Portela Nunes. Sucederam-lhe, em eleições indiretas, Helvídio Nunes de Barros, Alberto Tavares Silva, Dirceu Mendes Arcoverde e Lucídio Portela Nunes. Só em 1982 verificaram-se novamente eleições diretas, quando Hugo Napoleão do Rego Neto se elegeu governador. Sucedeu-lhe, nas eleições de 1986, Alberto Tavares Silva, nas de 1990 Antônio Freitas Neto e nas de 1994 Francisco de Assis de Morais Sousa.

Cultura
A Universidade Federal do Piauí, fundada em 1968, e com sede em Teresina, tem faculdades de medicina, odontologia, direito, filosofia e administração, esta última sediada em Parnaíba. Dos museus do estado, o mais importante é o Museu Histórico do Piauí. O Arquivo Público do Piauí funciona na casa Anísio Brito, que é também a sede da Biblioteca Pública e do Museu Histórico.

O Patrimônio Histórico e Artístico Nacional tombou, no território do estado, os seguintes monumentos: em Campo Maior, o cemitério do batalhão; em Oeiras (a antiga capital), o paço episcopal (antigo sobrado Nepomuceno), na praça das Vitórias, a Ponte Grande, sobre o rio Mocha; em Piracuruca, a igreja matriz de Nossa Senhora do Carmo; e, em Teresina, as cinco portas externas da igreja de São Benedito (1886). Em Teresina, encontra-se ainda a estátua de frei Serafim de Catânia, fundador da igreja de São Benedito; e, em Parnaíba, o obelisco em memória dos heróis da independência no Piauí.

Folclore e festas religiosas. Há grandes festas de santos padroeiros em muitas cidades, tais como a de Nossa Senhora do Amparo, em Teresina, a de são Gonçalo, em Batalha e Campo Maior, a de Nossa Senhora da Graça, em Parnaíba, e a de são Miguel Arcanjo, em são Miguel do Tapuio, Miguel Alves, Matias Olímpio etc. A semana santa é comemorada com pompa e procissões nas cidades de Floriano, Parnaíba, Pedro II, Teresina e Uruçuí. Luís Correia festeja seu padroeiro, Bom Jesus dos Navegantes, com uma procissão marítima.

Há tradicionais festejos populares, em geral ligados a datas religiosas, tais como o bumba-meu-boi ou dança do boi, realizado em fins de junho em numerosas cidades (Barras, Floriano, São Raimundo Nonato, Teresina); o reisado e as pastorinhas, entre o Natal e o Dia de Reis, também muito freqüentes (Conceição do Canindé, Floriano, Oeiras, Teresina); as folias de Reis e do Divino Espírito Santo, em Santa Filomena; as danças de são Gonçalo (Batalha, Campo Maior, São Raimundo Nonato); dança do tambor do crioulo (Teresina).

Turismo. Além dos monumentos históricos tombados, há que visitar a formação das Sete Cidades, no município de Piracuruca, constituída por sete conjuntos de formações rochosas, cuja altura varia entre quatro e cinco metros na primeira, para atingir 120 na terceira, chamada Castelo, e que cobrem uma extensão de vinte quilômetros quadrados. A 12km da capital fica o Zoobotânico, com praias fluviais no rio Poti, e a apenas cinco quilômetros de seu centro existe uma floresta petrificada, que se calcula remonte a 350 milhões de anos, e que em 1993 passou a ser parque municipal.

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LUCIANO MENDE Farias